segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Capítulo 17




- Eu não sabia... – murmurei, encolhida na minha cama. Minha mãe estava sentada do meu lado.
- Tudo bem, no fundo ele sabe que você não disse por querer. – tranquilou-me.
- Quando foi que...quando ela morreu?
- Marina morreu durante o parto devido a perda excessiva de sangue. Foi terrível para todos nós que acompanhamos de perto a gravidez dela. Ian estava tão feliz! Tão sorridente por ser uma menina! – ela disse, sorrindo – Quando ela morreu, ele entrou em depressão profunda, nem queria ver a menina. Graças a Deus ele voltou a si, voltou para Helena. Sei que se não fosse por ela, talvez ele não houvesse persistido em viver.
Respirei fundo, mergulhada em intensa compaixão.
Ele perdeu a esposa e criara sozinho a filha. Quem diria que um dia Ian seria pai…? Ou melhor, quem diria que a pessoa bem humorada e ativa iria se tornar um homem sério e protetor?
- Depois de uns meses após a morte da Marina, Ian voltou pra faculdade e se formou em medicina. Não sei se foi pelo ocorrido com a esposa, mas algum tempo depois ele se especializou e tornou-se um dos melhor obstetras da região. Ele fez o parto dos trigêmeos da Daniele.
- TRIGÊMIOS??? – gritei, rindo. – Meus Deus, três crianças de uma só vez...só podia ser da Danieli mesmo.
Minha mãe riu.
- É engraçado a ver levando três carrinhos de uma vez. São dois meninos e uma menina.
- Quais os nomes?
- Acho que é Romeo, Jack e Elizabeth – falou, me olhando.
Os dois primeiros nomes eram provavelmente influencias do Leonardo di Caprio e seus personagens.  Mas o terceiro...
- Ela escolheu o seu nome por homenagem a amizade de vocês.
Comecei a chorar de emoção. Minha amiga tinha feito aquilo por mim...roguei a Deus que ela me perdoasse.
- Nem sei o que dizer...amanhã vou na casa dela vê-los.
- Faça isso – minha mãe disse, levantando-se com um bocejo – Vou dormir. A casa é sua, você sabe.
- Eu sei – sorri para ela.
- Boa noite filha.
- Boa noite mãe.
E pela primeira vez em anos dormi tranquilamente.


POV Ian

“ Não posso voltar no tempo e acredite, se eu pudesse mudaria tudo. Todos os dias as suas lembranças me matavam de saudade”.

- Papaii, a agua tá fia.
Balancei a cabeça e sai dos devaneios.
- Desculpa princesinha – sorri para Helena, enrolando-a na toalha cor-de-rosa e tirando-a da banheira infantil. A coloquei de pé no toucador – Qual pijama você quer?
- O da Mini pai- falo, as perninhas e bracinhos gordinhos balançando inquietos.
Fui até o quarto adjacente ao banheiro e tirei do armário o pijama. Coloquei a peça de algodão e depois peguei uma escova no formato de um coração, passando-a levemente pelos cachinhos ruivos. Iguais aos da mãe.
- Pai, compra oto xampu?
Franzi o cenho diante do biquinho dela. Ela sorriu, revelando os dentinhos de leite. Peguei-a no colo e levei em direção ao quarto dela. Quando ele foi construído, Marina e eu nos dedicamos a decoração ao saber que seria uma menina. Pintamos nós mesmos em meio à guerra de tinta as paredes na cor rosa, mais tarde colando adesivos de borboletas. O berço, a cama de solteiro, as prateleiras, o toucador, o guarda-roupa e os mobiles haviam sido escolhidos por ela em uma tarde de verão. Minha única função foi montar tudo e carregar as sacolas.
“Mais rápido lesma, as lojas vão fechar daqui a pouco” – ela dissera praticamente correndo nos pequenos saltos altos, a barriga de cinco meses não a impedindo.
- Por que você quer trocar de xampu? Você sempre gostou dele – argumentei. Ela revirou os olhos, exatamente como a ame fazia.
- A filha da tia tem um cabelo bonito e cheloso. Tem Chelo de molango.
Estaquei enquanto a cobria.
- Quem filha?
- A filha da tia – repetiu, se ajeitando na cama. – Ela é muito bonita né pai?
- É... Muito bonita – concordei ao relembra-la – Agora durma, amanha tenho que te levar até a “tia”.
Helena não a chamava pelo nome
- Será que ela vai tá lá? Acho que o nome dela é Liz... Tipo da bebe da tia Dani.
- É meu amor- falei beijando o rosto redondo e corado – o nome dela também é Liz. Mas agora vamos dormir ok?
- Tá. Eu te amo – ela disse em meio a um bocejo e em pouco tempo pegou no sono.
Fiquei mais um tempo ali, velando pelo sono dela. Com passos lentos e silenciosos fui para o meu quarto e fechei a porta. Ele era grande demais para um só e era pequeno demais quando havia a Marina.
Eu o preferia pequeno.
Deitei na cama macia e espaçosa, fitando o teto. Pela primeira vez em anos meus pensamentos não voaram para o passado. Não lembraram momentos felizes que tive.
Eles estavam irrevogavelmente voltados para Elizabeth... A minha Liz.
Minha nada me corrigi, irritado.
Deus... Como eu sentira falta dela! Fora um choque encontra-la ali, diante das escadas, o passado momentaneamente apagado. Era como se tivéssemos 17 anos outra vez e ela estivesse me esperando na porta de casa para tomarmos um sorvete.
Claro, não havia nada de infantil na Liz de hoje.
Ela era bonita quando criança e adolescente, minha mente graças a Deus não apagou isso. Porém, nada me preparara para encontrar uma mulher linda e encantadora. A pele branca e imaculada era perfeita para os cabelos longos e inomináveis: nem loiros nem castanhos. Era a cor Liz, somente dela. Nunca havia visto nada parecido.
O rosto tinha os traços suaves, os olhos expressivos e lábios generosos. O corpo era pequeno, mas curvilíneo. A magrela havia desaparecido.
Mas o fato de estar linda não muda nada, pensei. Ela havia ido embora, fora por impulso como uma criança mimada. Havia abandonado amigos e família por capricho e fora morar com um pai que jurava repudiar... Não dera a mínima para os meus sentimentos nem os de ninguém. Claro, eu  admitia que havia sido tão criança quanto ela mais cedo. A raiva e magoa vieram com tanta força que me assustaram. Eu não sabia da intensidade da saudade e dos sentimentos que eu sentia e reprimia até vê-la.
Quando a abracei... Merda... Por um momento foi como se tudo voltasse ao normal, eu estava completo... E cristo, meu corpo não foi nenhum pouco obediente quando nossos corpos se tocaram.
Suspirei e esfreguei as mãos no rosto com força. Amanhã eu levaria Helena para ficar com Marta e consequentemente, caso Liz não tenha ido embora, vai ficar com ela também. Eu não queria que minha filha ficasse com Liz. Claro, eu tinha certeza de que ela seria incapaz de fazer algo contra o meu anjo, até porque, antes de me ver, vi a genuína alegria no rosto das duas ao se verem.
“A filha da tia tem um cabelo bonito e cheloso. Tem Chelo de molango.”
Agora era só o que me faltava: Helena começar a pedir tudo o que Elizabeth tem, começando agora pelo shampoo.
Decidi, satisfeito comigo mesmo, que conversaria com calma amanhã com Liz e deixaria tudo bem claro, o que eu queria e o que eu não queria. Assim, não haveria problemas.
Na minha cabeça estava tudo ok, mas isso não bastou para o meu corpo relaxar e eu dormir. Pelo visto seria uma longa noite, ainda mais se o cheiro dos cabelos de Liz não saírem da minha cabeça...





Gente, o POV quer dizer: ponto de vista.

Isso são bônus que podem ocorrer com Ian ou Helena, eles contando a história

ps: essa menina vai aprontarr ahsuahsuahsuhas. A inspiração sou eu mesma quando pequena kkk. Últimos capítulos, o que será que vai acontecer?
bjos


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Capítulo 16






- Como vai Ian?

TUM-TUM, TUM-TUM.
Ele era real e estava na minha frente. Por um longo momento senti que o Mundo girava em uma direção oposta a minha. Os cabelos negros e abundantes e os olhos verdes e profundos estavam lá, mas não havia nada de infantil no corpo musculoso nem nas feições fechadas. O sorriso caloroso que sempre me recebia desapareceu.
Ian parecia não saber o que fazer também, uma vez que ficou imóvel, seus olhos percorrendo-me de cima a baixo.
Saia, ele vai te chutar... uma voz disse a minha cabeça.
- Precisamos conversar – falou rispidamente, passando por mim – Helena?
- Oi papai – a menininha ruiva disse correndo na sua direção. Ele a pegou nos braços.
- Espero não estar incomodando Marta – falou, quando minha mãe entrou afoita na sala onde estávamos. Seus olhos estavam arregalados, passando de mim para Ian.
- É claro que não, sabe que eu adoro essa menina.
FILHA??? , quase surtei ao repetir a frase mentalmente.
Merda, como não reparei nos olhos da menina? Eram iguais aos de Ian. Todavia, os traços delicados e os tons ruivos de cabelo e sobrancelhas pertenciam a mãe.
- Dê ela para mim – minha mãe a retirou do colo dele – Creio que vocês queiram conversar. Que tal me ajudar a fazer o bolo Helena?
- Clarooo! – ela deu um gritinho e desceu do colo em um salto.
Quando as duas saíram, a sala parecia claustrofóbica.
- Que tal irmos ao meu quarto? – falei. Por favor, que ele não pense que vou pular nele...
- Pode ser.
Subimos em silencio até o cômodo e ao chegar lá me encolhi com o barulho da porta batendo com força.
Ian me olhou. Um olhar profundo, indecifrável. Minha vontade era me jogar aos pés dele e pedir perdão. Implorar para que apagasse tudo e que não me odiasse, mesmo ele tendo todo o direito.
Abri a boca para dizer algo, mas não houve tempo: Em um movimento brusco, Ian diminuiu a distância que nos separava e me envolveu em um abraço de urso, suas mãos segurando com força o meu corpo contra o dele. Retribui o gesto, desesperada para que o contato se prolongasse e preenchesse os vazios de sua ausência.
- Liz...-murmurou, seus dedos mergulhados em meus cabelos.
Eu queria beija-lo.
Não um beijinho entre amigos ou conhecidos que não se veem a tempo. Queria beija-lo como mulher. Era loucura, mas como eu queria.
Isso era surreal, mas a rejeição era esperada. No mínimo ele me chamaria de louca ou coisa pior, então me contentei em estar entre seus braços.
- Onde você esteve todo esse tempo? Como ousa voltar aqui como se nada houvesse acontecido? – o choque das palavras carregadas de fúria me fez encolher.
Assim como o abraço foi inesperada a separação abrupta também foi.
- Voltei para a minha casa, simples – me defendi.
- Agora essa é a sua casa – falou dando uma risada – Você não tem noção de como eu fiquei furioso, puto da cara quando você partir sem ao menos se despedir. Queria fazer uma ceninha de despedida, parabéns, conseguiu.
- Sabe que detesto despedidas, preferi nos poupar disso.
- Poupar? Uma noite estamos conversando pessoalmente, na seguinte ligo para você e sua mãe diz que foi morar com o seu pai, do nada.
Aquilo soava um absurdo até para os meus ouvidos.
- Já tinha tomado essa decisão há algum tempo – falei, dando de ombros.
- Legal – falou dando-me as costas – Por muito tempo fiquei me questionando se foi algo que fiz. Daniele fez o mesmo. Até hoje ela não consegue pronunciar o seu nome.
Meu coração estava em frangalhos. Eu merecia ser atacada com palavras, mas não sabia quanta dor eu poderia sentir com isso.
- Vocês são os meus melhores amigos, queria evitar brigas pelos motivos de eu ir. Sei que vocês tentariam me impedir ou ficariam furiosos. Seja qual fossem as opções, iria magoar alguém.
- Se você realmente se importasse conosco teria nos contato. Se tivesse se arrependido teria voltado. Passaram-se sete anos e você não veio uma única vez nos visitar, uma! Todos os dias liguei para você, tentei entrar em contato. Houve uma vez que eu e Daniele guardamos dinheiro para visita-la – relembrou, sorrindo amargamente – E você deixou o recado para a empregada de que iria viajar e não poderia nos receber. Acho que o pior de tudo era ver a tristeza estampada no rosto da sua mãe. Ela se sentiu traída por você. Você deixou de lado a mulher que te criou e amou para ficar com o homem que mal lembrava da sua existência.
- Não fala assim do Marcelo. Eu também pensei assim, que ele não me queria, mas a verdade é que a minha mãe nos separou, o impedindo de me ver e... – menti. Ele me ignorou e continuou.
- Sabe... - continuou, ignorando as minhas palavras... Durante todos esses anos eu imaginei como seria caso eu a reencontrasse. Achei que o tempo diminuiria a raiva e que eu a trataria como um adulto. Mas agora estou sentindo os mesmo sentimentos de quando você partiu.
- Eu sinto muito...
- Sente mesmo? Então porque não sentiu há sete anos?
- Tive medo droga! Medo de não me receberem! E querendo ou não, as experiências que vivi foram boas...
- Teve medo antes e agora não? – murmurou sarcástico. Ele se aproximou me segurando pelos ombros.
- Me solte! Você não sabe meus motivos de partir! – gritei
- Então me diga... Diga por que foi embora sem se despedir. Diga por que magoou todas as pessoas que te amavam, diga por que deixamos de existir para você durante esse tempo.
Eu chorava e não me importava com isso. Chorava de raiva de mim mesma.
Chorava pelo fato de nem poder contar os meus motivos. Se eu o fizesse só pioraria tudo.
- Viu? – falou, me empurrando – nem você sabe. Não passa de uma garotinha mimada e fria.
- Vá embora daqui! – gritei furiosa. As palavras dele me cortaram como navalhas afiadas – Não posso voltar no tempo e acredite, se eu pudesse mudaria tudo. Todos os dias as suas lembranças me matavam com a saudade. Quando voltei, sabia que nem todos aceitariam e me receberiam de braços abertos. Sei que está com raiva, mas não com tanta intensidade. Não posso culpar por me odiar – ele me olhou com a expressão confusa e eu o ignorei – Você tem motivos de sobra para isso, mas não permitirei que me insulte. Veja o lado bom...-falei, cega pelas lágrimas, rindo como louca – Com a minha partida todos se casaram e tiveram os seus finais felizes. Sei que Daniele se casou com o Eduardo e você com a Marina. Sua filha é linda, você tornou-se médico como o sonhado e eu? Eu não tenho nada!
- Não tem por culpa totalmente sua e...
- Cala a boca! Eu sei o que fiz e sei como se sentem. Não espero que me perdoem, mas que pelo menos me deixem voltar para o meu lugar. Não vou cobrar a amizade eterna que um dia me ofereceu, sei que não sente nada por mim, muito menos amizade.
- Liz... - falou, vindo em minha direção. Afastei-me.
- Você disse o que queria agora vá embora. Volte para casa e encontre a sua esposa perfeita juntamente com sua filha.
- Não posso e se você realmente se importasse comigo, pelo menos saberia, nem que fosse pelos outros: não tenho mais minha esposa perfeita.
- Ah, não me diga!
Ele me olhou furioso e abriu a porta com força.
- Ela está morta – disse e saiu.
Fiquei atônita.
O que foi que eu fiz???

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Capítulo 15



Elizabeth Mansen, você me daria à extraordinária honra de ser a minha esposa?
Deixei que as lágrimas rolassem quando o encarei.
- Não... Sinto muito, mas não posso...

- Ele te pediu em casamento e você o recusou – minha mãe me olhou, os olhos tristes e cheios de compaixão que eu não merecia.
Balancei a cabeça, tentando voltar ao presente e deixar mais uma vez aquelas lembranças.
- Eu não podia mãe. Deus sabe o quanto eu tentei continuar com aquele relacionamento, mas não deu. Edgard é um cara bom e merecia alguém melhor do que eu, alguém que correspondesse às expectativas dele.
- E o que você fez Liz? Porque não voltou para casa?
Dei um sorriso amargo.
- Edgard e Marcelo eram próximos e obviamente o nosso rompimento afetou todo mundo. Então fiz algo que sempre sonhei: arrumei as minhas malas e fui para Paris a estudos. Comprei um apartamento lá e dediquei os meus dias aos museus. Consegui um emprego temporário no Louvre.
“Liz... você não precisa ir embora... finalmente sinto que minha filha está em casa.”
Uma fala de Marcelo me atingiu. Logo a afastei. Com o tempo tornei-me profissional em afastar lembranças que machucavam.
- Bem, pelo menos isso foi algo bom. Desde pequena você dizia que iria morar na França.
- É... Pois é.
O silêncio voltou. Pela primeira vez durante todo o tempo da nossa conversa, notei que minha mãe tinha fios grisalhos e muitas marcas de expressão. Ali estavam às provas de como o tempo passou.
- Creio que nada justifica as suas atitudes: Ir embora por estar apaixonada por um amigo, o que não há nada de anormal, e ficar sete anos longe de casa. Sabe o quanto eu senti a sua falta durante todos esses anos? O quanto fiquei preocupada quando não recebia noticias suas? Não houve um dia desde a sua partida que não esperei que a qualquer momento você tocasse a campainha e voltasse para mim, para os seus amigos. – soltou um suspiro cansado – Não sabe o quanto foi difícil chegar em casa e não te ver, limpar o seu quarto sabendo que você não entraria lá, nos Natais, aniversários e feriados não estaria contigo. Até das farras com Ian e Daniele eu senti falta!
- Desculpe... -balbuciei, segurando o choro. Eu não era mais uma criancinha que lágrimas bastavam para se ter o perdão.
- Ai Liz... - se aproximou e me envolvendo em seus braços – O que foi que você fez com a sua vida hein?
- Não sei mãe. Todos os dias me questiono isso, o que teria acontecido se eu houvesse ficado. Acredite, se eu pudesse voltar no tempo ficaria aqui, com você – a apertei com força, tentando anular a distancia que o tempo deixou entre nós. – Sei que agi como uma criança. Mas a parte boa é que realizei os meus sonhos profissionais e Marcelo e eu nos aproximamos.
Ouvi o riso dela. Ela me afastou, sorrindo em meio às lágrimas grossas.
- Como aquele cafajeste está?
- Depois que Caroline o deixou ele se transformou no Don Juan – rimos – Ele está bem e fico feliz de estarmos próximos. Ele foi muito bom pra mim durante todo esse tempo.
- Fico feliz Liz, realmente feliz – me abraçou mais uma vez, com força suficiente para quebrar minhas costelas – Durante esse tempo eu li reportagens sobre suas exposições. Que orgulho ter uma filha artista. Fiz questão de tirar cópias das reportagens e mandar para amigos a parentes. Que bom que está em casa.
Sorri emocionada. Ela ainda estava magoada, mas eu não podia culpa-la. De alguma maneira eu ia compensar todo o tempo perdido.
Afastamo-nos e ela foi em direção ao fogão.
- Que tal um bolo de chocolate?
- Acho uma ótima ideia mãe. Faz tempo que sonhos com os seus bolos.
Ela riu e começou a separar os ingredientes. Levantei da cadeira e comecei a vagar pelos cômodos. Fui para a sala e respirei fundo o cheiro de lavanda. Fui para a estante e observei foto a foto: eu ainda bebê, minha mãe grávida, a festa de Natal, meus amigo e eu. Os enfeites continuavam no mesmo lugar. Na verdade parecia que a sala havia parado no tempo, nada havia mudado.
Deixei o porta-retrato no lugar quando a campainha tocou
- Atendeu para mim Liz! – minha mãe gritou do cômodo.
Sorri e fui em direção a porta. Ao abrir olhei para os lados e só quando baixei meus olhos vi uma linda menininha me encarando.
- Quem é você – ela perguntou, os olhinhos verdes em completa confusão.
Não fazia ideia de quem era. Talvez fosse filha de algum vizinho. Agachei-me até ficar no mesmo nível que ela.
- Oi, eu sou Liz – falei – E você, que é?
- Eu sou a Helena – respondeu. Que menina linda! Os cabelos eram ruivos em delicados cachinhos que emolduravam um rostinho branco como o deu uma boneca. Ela sorriu, mostrando os dentinhos de leite e a falta de dois deles bem na frente.
- Ei, cadê os seus dentinhos? Tem uma janela ai - brinquei e ela riu.
- Eles estavam moles, então o papai puxou – mostrou com um dedinho gordo a abertura - E eu nem chorei.
- É isso ai garota – parabenizei, ficando de pé.
- Cadê a tia Marta?
- Tá na cozinha flor – respondi. Ela deveria vir com frequência, uma vez que quando respondi ela entrou e foi encontra-la – Tiaaaaaa!!! – ouvi o grito dela e depois o da minha mãe.
- Helena! Já falei para me esperar.
Ouvi a voz e estaquei.
Olhei para o homem que saía do Volvo preto e subia as escadinhas com uma sacola de bebê e uma enorme boneca nos braços. Ele não olhava para cima, apenas no caminho que percorria  para não tropeçar. Senti meu coração descompassado quando pude ver de perto o sorriso dele. O sorriso que mais amava no Mundo.
Foi então que ele olhou para cima, olhou para mim.
O sorriso desapareceu quando ficamos frente a frente, nos encarando.
- Liz? – falou receoso.
Forcei um sorriso.
- Como vai Ian?



Comentário da Autora: ahhhhh muleki, e agora? Como vai ser esse reecontro?

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Capítulo 14, parte II





Você não vai acreditar, Ian pediu Marina em casamento ontem à noite, na casa dos pais dela e já marcaram a data! Vai ser no dia do seu aniversário!!!
- Está tudo bem Elizabeth?
Fechei a tela com força e demorei um segundo para notar que Edgar estava falando comigo.
Forcei um sorriso.
- Tudo, por quê?
- Você está pálida e suas mãos estão trêmulas.
Olhei para minhas mãos que tremiam levemente. Droga de reações indesejadas.
- Acho que a minha pressão baixou – menti.
Ele me olhou com as sobrancelhas levantadas e estendeu a sua mão a mim. Confusa a peguei, quase soltando um gritinho boiola quando ele me puxou com força para ficar em pé.
- Vamos dar uma volta – declarou, já me puxando. Todos nos observavam, e derrotada, deixei que me levasse. seria inútil fazer uma cena.
Foi a partir daquele momento que Edgard e eu ficamos mais próximos. Ele me ligava todos os dias para saber como eu estava e aos poucos fomos saindo e passando um tempo juntos. Ele era uma boa companhia, eu tinha que admitir. Gostava de passar um tempo com ele, gostava da risada rouca, dos olhos gentis e bem humorados e das conversas longas e leves. Ele era lindo e quando saíamos a algum lugar, podia sentir o olhar de inveja das mulheres nas minhas costas.
Certa noite fomos ao cinema assistir o filme Lua Nova. Sim, eu sei que é só mais uma modinha de filmes, com vampirinhos que brilham no Sol e Lobisomens sem um pelo no corpo. Mas assistindo, mesmo sabendo que era puro masoquismo, eu lembrava a época em que li os livros que deram origem aos filmes.
Com os braços ocupados com sacos de pipoca, chocolates e refrigerantes, entramos na sala pouco iluminada e quase deserta. Quando sentamos, senti certa tensão no ar. Assistimos em silencio, hora ou outra fazendo comentários monótonos das cenas.
Eu sabia que ele me olhava o tempo todo e eu agradecia mentalmente pela sala ser escura e ele não notar o meu rubor.
Qual é, eu não era uma menininha boba que não sabia o que estava acontecendo ou quais eram as intenções dele. Éramos adultos e ele estava interessado em mim... E droga, ele era lindo demais e estava olhando para mim.
- Você está muito quieta Liz – ele disse enquanto dirigia em direção a minha casa. A Mercedes roncava suavemente aos 100 km/h.
- Só estou cansada – respondi, tentando não olhar pra ele.
- Acho que precisamos conversar.
Apenas suspirei, temendo a conversa.
Edgard estacionou na frente da minha casa e em um segundo já abria a porta para mim. Entramos em silencio na mansão vazia e estranhamente calma
- Acho que Marcelo prolongou a viajem.
- Isso é bom – olhei para ele. – Vou acender a lareira, está frio. Que tal bebermos um vinho?
- Pode ser...
Vinha + lareira + cara lindo na sua sala + casa para nós= ferrou.
Atrapalhada, peguei uma garrafa de vinho da adega e uma taça. Não iria beber, então peguei um copo de leite gelado. Edgard riu quando ofereci a bebida a ele e eu tomei o leite. Ele sentou no tapete felpudo do chão, em frente as chamas. Fiquei em pé, apenas observando ele sorver um pequeno gole da sua bebida e depois deixando a taça de lado.
- Sente comigo – pediu, estendendo uma mão. – Não vou fazer nada, prometo.
Sentei ao lado dele, o coração ameaçando sair pela garganta quando o vi arregaçar a manga da camisa e revelando uma pele bronzeada e os músculos do braço.
Nossa senhora da definição musculosa... Ajuda-me!
- Você disse que queria conversar – relembrei, quando o senti cada vez mais próximo. Nos seis meses que o conhecia, nunca o vi daquele jeito: relaxado e com sorriso malicioso nos lábios.
- Sim, eu disse – ele segurou meu rosto entre as mãos, virando-o para encará-lo – você é linda Liz... -sussurrou, depositando um beijo casto na minha testa – e quero que saiba que não tem nada de amigável no que eu quero com você. Não me basta o titulo de amigo.
Vou ter um AVC...
- Estou apaixonado por você Liz e eu a quero. Descobri que não quero ser apenas o seu amigo no momento em que você ficou toda lambuzada de sorvete no nosso passeio no parque.
Ele tinha que lembrar que o sorvete me engoliu, não o contrário.
- O que você sente por mim? –ele interrogou, sério.
Pela pergunta direta eu não esperava. Encarei os olhos castanhos e profundos, achando que a qualquer momento eu iria desmaiar... Claro, só se ele me carregasse escada à cima em seus braços auhsuahsauhs.
Eu não sabia o que sentia por ele.
Edgard tornou-se alguém muito próximo, alguém que eu precisava da companhia, que eu apreciava as conversas, as risadas, o modo como me encarava. Desde que eu havia chegado, em todos os cinco anos ali, ele foi o primeiro que não me julgou, que não esteve nem ai para as minhas reservas e descaso com relacionamentos. Ele forçara a barra para entrar na minha vida e eu era grata por isso, pois sabia que eu não deixaria passivamente. Marcelo gostava dele... Todo mundo gostava dele e eu sentia ciúmes quando as garotas o encaravam com desejo.
Ele era lindo, inteligente, responsável e estava apaixonado por mim... Qual  o problema se eu tentar ter algo a mais do que uma amizade com ele?
Naquela manhã eu havia decidido desatar os laços com o passado quando o convite para o casamento de Ian chegou. Estava exausta de negar o que eu sentia por ele, cansada de me lamentar e me privar de tudo por alguém que não se lembrava de mim e não fazia ideia do que eu sentia.
Eu queria ser livre e ali estava uma excelente oportunidade.
Decidi ser sincera.
- Não sei o que sinto Ed... mas é algo bom, disso eu tenho certeza.
Ele sorriu. Um sorriso capaz de derreter o Iceberg do Titanic.
- Ótimo, então vamos descobrir.
- Como? – brinquei, sorrindo largamente.
- Assim – sussurrou, um segundo antes de sua boa assaltar a minha.
No inicio foi só um roçar de lábios. Não era um beijo afoito de novelas.
Era um teste para saber qual era a minha reação. Fiquei imóvel por um momento, apenas sentindo sensações invadirem o meu corpo com o beijo suave e atordoante. Então as minhas mãos tiveram vida própria e mergulharam nos cabelos sedosos, meus lábios urgentes abrindo-se para ele.
Ouvi um suspiro de contentamento e logo o beijo tornou-se completo. Fui puxada de encontro ao peito dele com força, seus lábios exigentes sobre os meus. Eu não conseguia pensar, apenas corresponder com desespero as caricias dele.
Não sei como aconteceu, mas fui girada em seus braços e depois senti a maciez no tapete nas minhas costas, o corpo de Edgar moldando-se ao meu. Os beijos tornaram-se profundos, os toques intensos e só quando nos faltou o ar é que nos separamos. Ele espalhou beijinhos por todo o meu rosto, sem desviar o olhar do meu.
Quer saber? Dane-se!
E com isso o puxei para mim e recomeçamos tudo. Protestei quando ele deixou os meus lábios e riu.
- Acho melhor pararmos – ele falou, se afastando. – Mas acho que por hoje isso já respondeu as minhas perguntas.
- Bobo – brinquei feliz.
Ficamos mais algum tempo conversando e trocando alguns beijos. Quando ele foi embora, um vazio tomou conta de mim. Eu sabia que não era saudade, era apenas o medo de voltar a ser sozinha. Peguei o convite que continuava em cima da escrivaninha desde aquela manha e o jóquei dentro de uma gaveta.
Foco, pensei.
Assim transcorreu o tempo em uma velocidade absurda. Começamos a sair mais e para a alegria de Marcelo, anunciamos o nosso namoro. Naquele meio tempo, comecei a dar aulas de arte na faculdade e a fazer o meu mestrado. Minha mãe ficou feliz com as noticias e indignada com o fato de mais uma vez eu não passar o natal com ela.
- Mãe, por favor, chega de drama – falei ao telefone.
- Em cinco anos você não passou um feriado comigo e me visitou apenas uma vez, por duas horas!
- Vamos fazer o seguinte: você passa o Natal aqui e no Ano Novo viajamos juntas, que tal? – na minha cabeça a ideia era perfeita.
Olhei para o relógio na parede. Já estava atrasada a janta.
- Você esqueceu? O casamento do Ian é no dia 24... Não dá tempo de eu ir ao casamento e depois sair correndo e indo para ai.
Olhei para o telefone como se ele houvesse me mordido. Ian ia se casar semana que vem.
- Liz... Liz?! Filha, tá meu ouvindo?
- OI mãe – falei desesperada para desligar – desculpa, é que estou muito atrasada para preparar o jantar, Edgard deve estar vindo.
- Tá – ouvi o suspiro dela – Te ligo mais tarde, e falando em Edgard...quando vou conhece-lo?
- Em breve – falei impaciente – tenho que desligar, eu te amo.
- Eu também te amo.
Fiquei mais um tempo, parada,  fitando o telefone. Já eram quase oito da noite. Edgard ia chegar a qualquer momento assim como Marcelo, ambos esperando um jantar que pelo visto não ia sair.
Dane-se.
Subi as escadas em direção ao meu quarto e bati a porta com força para fechá-la. Joguei-me na cama, a dor e a angustia me consumiam por dentro. A sensação era de estar sem ar em pleno mergulho, meus pulmões doíam. O choro começou baixinho e eu queria me chutar quando ele se tornou um soluço descontrolado.
Desvairada, levantei em um pulo e abri meu armário, retirando do fundo uma caixininha de madeira coberta pelo pó. Joguei tudo o que tinha em cima da cama e com dedos trêmulos segurei uma foto e um pingente de prata. A foto foi tirada no meu aniversário de 17 anos, em meio a risadas e gritos. Eu estava de vestido como uma menina deve usar segundo a minha mãe, mas não abdiquei do All-Star. Ian estava lindo, de calça escura e camisa com mangas arregaçadas até o cotovelo. Os cabelos como sempre estavam desalinhados e o sorriso largo e amado abriu cortes em meu peito só com a lembrança. Sorriamos um para o outro.
Depois, dediquei minha atenção ao pingente que segurava com força na palma da mão. Presente de aniversario.
“ Eu amo você pirralha, nossa amizade é eterna!”
Essa frase estava gravada no verso. Passei a unha sobre os contornos elegantes da gravação e o choro recomeçou.
Que diabos eu fiz???
Havia deixado o homem que amava e agora chorava por ele casar com outra. Eu me considerava um adolescente ou criança mimada quando fui morar com o Marcelo, isso servia de justificativa. A garota que se apaixonada pelo melhor amigo e decide partir pelo bem de todos. Mas nesse caso, o garoto ama outra e o tempo por mais que passe, não vai faze-los se reencontrarem em um lindo fim de tarde e declararem-se. Não vai apagar o passado, as burradas e mágoas que ali continham.
Minha mente podia ser desmiolada, mas os meus sentimentos eram muito maduros.
- Liz?
Olhei para Marcelo, que me encarava em profunda confusão.
Pela primeira vez em toda a minha vida eu precisava do apoio dele como pai, como amigo e pareceu que ele entendeu isso, pois com nenhuma pergunta se aproximou e me envolveu nos seus braços, deixando que eu chorasse ali. Ele afagou os meus cabelos e dizia frases do tipo “vai ficar tudo bem, eu estou aqui”.
Eu sabia que não ia ficar tudo bem, nunca mais. Deixei ser embalada até pegar no sono pela exaustidão.
Quando o dia 24 chegou, véspera de Natal, não fui na ceia com meu namorado e nem decorei a casa e comprei presentes como costumava fazer. Convenci Marcelo de ir na casa de Billy aquela noite e aleguei a Edgard que eu estava com muita dor de cabeça e só queria descançar. Senti-me muito mal quando ele pediu para ficar comigo e eu neguei. Para aliviar, prometi ir na casa dele na manhã seguinte, bem cedo.
Quando se aproximava das 7 da noite, tomei um banho demorado, coloquei o vestido vermelho que havia comprado para a data especial e sentei na frente da lareira, minhas únicas companhias eram o tic-tac do relógio e o barulho das chamas.
O “casamento era às oito horas e quando chegou as oito e meia eu sabia que o ‘eu aceito” já havia sido dito. Nunca frequentei casamentos, mas sabia que as cerimonias duravam em média meia hora. Com isso, às nove horas, eu sabia que ele estava casado e milhares de vezes mais distantes com a união.
Beberiquei o vinho que havia me servido e fiz um brinde.
“Seja feliz Ian”
E o brinde resultou no maior porre da minha vida.
Na manhã seguinte, com a cabeça estourando de dor, fui no apartamento de Edgard.
- Feliz Natal – ele disse, me puxando para dentro do local com um abraço apertado.
- Feliz Natal – respondi, forçando um sorriso. Estendi a caixinha que havia trazido comigo – Trouxe o seu presente.
A expressão de Edgard era linda demais, típica de um menininho na manhã de Natal. Um sorriso largou surgiu ao ver o relógio que eu havia comprado.
- Obrigado – sussurrou, me puxando para um beijo longo.
Ele também me deu presentes: um lindo vestido azul-marinho de festa e um maravilhoso estojo de joias.
Agradeci os presentes e depois almoçamos com tranquilidade.
- Amor, o que foi? Você está...distante.
Olhei para Edgard, sentado no sofá.
O homem, que mesmo sendo uma loucura continuo a amar, vai ser casar hoje, pensei.
Eu só queria esquecer!
- Não foi nada – falei e num impulso insano, subi no colo dele e o beijei.
Edgard pareceu confuso por um momento, mas logo retribui na mesma intensidade. Quando o beijava esquecia tudo, mas daquela vez não estava acontecendo isso. Beijamo-nos e quando dei por mim, estávamos deitados no enorme sofá, suas mãos percorriam os meus contornos. Namorávamos há quase um ano e o tema sexo não havia sido a pauta de nenhuma  conversa. Eu sabia que ele esperava por isso, mas eu não estava preparada. Quando senti as mãos dele por dentro da minha blusa me afastei.
- Desculpe – murmurei, apoiando a minha testa no peito dele – Eu... Eu ainda não estou preparada para isso, eu..
- Shhhh – falou, beijando meus cabelos – Não tenho pressa Liz. Eu a desejo, mas vou esperar o tempo que precisar... Eu amo você.
Fiquei imóvel. Ele... Ele me AMA????
- O que...? – sussurrei.
- Eu amo você Elizabeth. Não havia planejado as coisas assim, mas acho que essa é a oportunidade perfeita.
Atônita, o vi se levantar e se ajoelhar na minha frente, seus olhos não deixando de fitar os meus. Uma caixinha foi aberta, revelando uma linda aliança adornada de diamantes. Meus olhos deviam estar maiores que os de peixe.
- Liz – começou, pegando a minha mão – Eu sei que é repentino.  Talvez você considere cedo, mas eu tenho certeza do que eu quero: Quero você. Quero uma vida a dois e quem sabe futuramente três, quatro, cinco – sorriu – Quero que seja minha esposa, quero filhos seus e quero dormir e acordar com você, só você. Eu a amo e Deus é testemunha do quando eu desejo todas essas coisas. Eu não sou o cara perfeito para você, talvez nem o melhor... Mas ninguém a amará tanto quanto eu. Eu disse que posso esperar porque teremos todo o tempo do Mundo para nos amar e se depender de mim, muitas e muitas vezes por dia – brincou minhas lágrimas agora embaçavam tudo. Se eram de alegria ou medo eu não saberia dizer  – Elizabeth Hansen, você me daria a extraordinária honra de ser a minha esposa?






observação: bem, começaram as cenas...calientes UHSUAHSUAHSUAHSA.

Espero que tenha gostado e vou tentar postar o próximo capítulo o mais rápido o possível, abraços!!!































segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Capítulo 14, Parte I




Subi a pequena escadinha da varanda, as malas pesadas fazendo com que meus passos fossem mais lentos. Deixei-a no meio do meu caminho e olhei para a casa em que passei toda a minha infância e boa parte da adolescência.
Ela continuava no familiar tom de bege, dois andares, cercada por um jardim colorido que minha mãe cuidava com dedicação e um antigo balanço feito com uma corda e um pneu velho. Era outono, e tudo tinha cheiro de folhas queimadas e flores desabrochando. Aproximei-me da porta da frente e com o coração acelerando, apertei hesitante a campainha.
O silencio era mortal e por um momento, desejei que não houvesse ninguém em casa e essa seria a deixa para eu voltar para a casa do meu pai. Todavia isso não aconteceu e em poucos momentos ouvi um barulho de salto sobre o piso vindo em direção a porta. Pelo vidro, pude ver minha mãe se aproximando, a cabeça curvada procurando a chave.
Quando ela abriu a porta, nós duas ficamos estáticas no lugar. Eu não sabia qual seria a reação dela ao me ver, sendo que não a visitava uma única vez desde a minha partida. Com o tempo, o numero de ligações foi diminuindo assim como a proximidade e conversas entre nós duas. Nos primeiros dois anos ela insistira de eu  passar no mínimo um final de semana por mês com ela e no fim, não compareci nem em datas especiais como o Natal. Eu sabia o quanto a tinha magoado todas as vezes que prometi vir e não compareci e principalmente em datas importantes que sempre foram comemoradas, como o meu aniversário.
- Oi – sussurrei insegura diante do olhar indecifrável dela. Por um momento achei que ela fosse fechar a porta na minha cara, mas esse pensamento se dissipou quando fui envolvida em um abraço forte.
- Graças a Deus – ela murmurou entre os meus cabelos. Senti o corpo dela tremendo levemente contra o meu – Não sabe o quanto eu tive medo de nunca mais vê-la.
Um espasmo de dor me atingiu ao notar a magoa e alivio da voz dela. A apertei mais forte, tentando diminuir aquele vazio que a ausência dela deixou durante todo aquele tempo. Era tão bom sentir a macies da pele dela, o abraço aconchegante, o conhecido cheiro de lavanda e biscoitos!
Ficamos assim por longos minutos, até que ela me afastou, segurando os meus ombros e seus olhos me inspecionando.
- Você está tão linda Liz, tão linda!
Sorri sem jeito, notando as marcas de lagrimas no rosto dela, as mesmas que deveriam estar no meu rosto também. Olhar para ela é a mesma coisa que voltar no tempo. Tudo estava igual a meu ver, embora eu soubesse que estava diferente.
- Obrigada mãe – sussurrei.
- Vamos, entre – ela disse, descendo as escadinhas e pegando as minhas malas. Fiz menção de pega-las mas ela apenas balançou a cabeça – Você deve estar cansada. Vou deixar roupas limpas em cima da sua cama e enquanto você toma um banho.
- Precisamos conversar mãe – falei, seguindo-a para dentro da casa. Um cheiro de bolo de chocolate me atingiu.
- Eu sei – ela disse sem parar, subindo as escadas. Passei rapidamente os olhos pelos cômodos do andar superior. – Mas primeiro descanse, temos muito tempo.
Não respondi. Apenas a segui silenciosamente pelo segundo andar. Respirei fundo ao andar pelo corredor que levava ao meu quarto. Ela abriu a porta com força e entrou. Parei na entrada do quarto, sentindo-me constrangida, deslocada. Eu não me sentia digna de estar ali, o quarto não parecia me pertencer mais.
- O tempo parou aqui – ela disse, colocando as minhas coisas em cima da cama – Parece que eu adivinhei que você vinha, arrumei e limpei tudo ontem a tarde.
- Nada mudou mesmo – constatei feliz. Parecia que eu estive ali há poucas horas atrás. Os desenhos, bonecas, fotos, livros continuavam no mesmo lugar em que eu lembrava de ter deixado. O leve cheiro de mofo não me incomodou.
- Tentei manter tudo como você deixou – ela disse, já saindo do quarto – Porque não houve um dia em que eu não tivesse esperado você bater na porta.
Fiquei estática com o ultimo comentário e mais uma voz uma onda de remorso me atingiu. Eu queria tanto esclarecer tudo! Contar o que havia acontecido nos últimos sete anos para eu nunca mais ter aparecido!
Quando ela desapareceu do meu campo de visão, voltei os meus olhos para o quarto. O Sol entrava pelas cortinas de renda, banhando- o de luz. Nada havia mudado e por um momento desejei ser a menina de 17 anos que dormia naquele lugar, a dona daquele lugar. Sorri para o velho urso de pelúcia em cima da cama. O segurei enquanto vagava por cada canto daquele ambiente: abri as gavetas que ainda tinham alguma peças de roupa, tentei relembrar o porque das anotações em folhas de papel em cima da escrivaninha, abri o guarda-roupa e franzi a testa ao ver uma caixinha de papel ao fundo.
Tirei-a de lá, meus dedos ficando marcados com a grossa camada de pó. Ao abrir senti lagrimas quentes e involuntárias em meio ao meu sorriso: havia cartas de amigos, de namoradinhos de infância, uma chupeta de criança, dois dentinhos de leite, várias fotos e por fim uma correntinha de prata. Segurei-a entre os dedos e por impulso a coloquei: foi um presente de 15 anos que...
Estaquei ao lembrar-me de um nome doloroso e que estava marcado a ferro em mim.
- Precisa de alguma coisa filha?
Assustei-me ao ver minha mãe dentro do quarto. Sorri de leve
- Não, não, obrigada. Já estou indo tomar um banho.
- Pode pegar uma toalha limpa no meu armário. – declarou antes de sair mais uma vez.
Peguei uma toalha felpuda, separei meus produtos de higiene e roupas íntimas e me entreguei a deliciosa tarefa de tomar um banho quente e demorado. Só sai quanto meus dedos estavam enrugados e uma grossa camada de vapor escorria na parede de azulejos.
Coloquei uma calça bege confortável, uma camiseta larga e sai de pé no chão até a cozinha. Minha mãe servia uma xicara de café quando sentei a mesa.
- Deve estar faminta.
- Não estou – declarei, afastando a oferta – Quero conversar com você mãe.
- É o que venho esperando há anos Elizabeth.

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Quando entrei no meu novo quarto, na casa de Marcelo, foi que percebi que as minhas atitudes poderiam mudar a minha vida radicalmente. Ali não havia o aconchego, a segurança de a minha mãe estar na porta ao lado, nem meus amigos a poucos metros de mim. Eu estava em uma cidade desconhecida, longe pra caramba de tudo o que eu amava e conhecia e teria que conviver com o homem que diziam ser meu pai, mas não passava de um estranho a mim.
- Gostou do seu quarto? Contratei uma arquiteta para decorá-lo, ela parece entender sobre quarto de adolescentes.
Timidamente, deixei minha bolsa em cima da cama King Size com dossel e observei o amplo espaço que agora era meu: a cama era o centro das atenções do quarto, digno de uma historia de princesas da Disney e de cada lado dela havia um criado mudo de carvalho. No mesmo material, tinha uma grande escrivaninha com uma estante de livros embutida, um laptop branco e um lindo candelabro decorativo. As paredes eram cor-de-rosa, teto e rodapés brancos. Havia um closet que jamais seria totalmente preenchido se dependesse das coisas que eu havia trazido na viajem. Mas a melhor parte com toda a certeza era a sacada com uma vista incrível para o mar.
O quarto era lindo, mas totalmente impessoal.
- É maravilhoso Carol – forcei um sorriso a ela que foi retribuído.
- Que bom que gostou – caramba, será que ela ia mesmo insistir em ser a madrasta boazinha??? – Bem... Vou deixar você a vontade, creio que precise de um tempo só pra você. Tem um banheiro naquela porta ali, ao lado do closet – indicou – vou pedir pra Ruth deixar toalhas limpas e se precisar de alguma coisa basta chamá-la.
Modo automático – ativado, pensei.
- Obrigada. – dei um sorriso amarelo e revirei os olhos quando ela fechou a porta.
Dei uma volta pelo quarto, reparando na riqueza de detalhes de cada peça do cômodo. Depois, tirei minhas roupas das malas e comecei a coloca-las nas amplas prateleiras e armários do closet. Tive um choque ao ver que Carol ou seja lá quem foi, havia comprado vestidos de festa, camisetas com e sem estampa, saias, jaquetas e um arsenal de jeans. Meus olhos se esbugalharam ao ver uma fileira de Keds e All-Star alinhados.  
- Nossa... - sussurrei ao ver o valor de um calçado em uma etiqueta.
De duas uma: ou eles haviam esquecido ou era um modo de me impressionar, meio que dizendo “gastamos tudo isso porque gostamos de você”. Sorri com a opção de “puxar o saco”.
Cansada, tomei um longo banho e coloquei o pijama mais surrado que tinha: calça de moletom furada e uma camiseta larga, um meio de protesto contra a camisola da Victoria Secrets que havia ali. Já era passada das dez da noite e meu cansaço me deixou no limite. Recusei o jantar oferecido e apenas agradeci quando deitei na enorme cama. Fitei o teto e senti falta das estrelinhas que brilham no escuro. Tomei um susto quando meu celular vibrou ao meu lado. Havia 22 ligações perdidas, todas de Ian. Não retornei nenhuma, embora os meus dedos formigassem para digitar o numero dele e ouvir nem que seja um alô daquela voz profunda. Abri uma mensagem dele. Não resisti e me chutei mentalmente.

De: Ian
Para: Liz

“ Achou mesmo que conseguiria ir embora sem que ninguém ficasse sabendo? O que deu em você Elizabeth??? Acabei de ligar na sua casa e sua mãe me diz que você está morando agora com o seu pai. O que aconteceu pra você tomar um decisão dessas? Você sempre disse que não iria morar com ele e sem mais e nem menos você vai e ainda sem avisar nenhum dos seus amigos. Daniele está muito decepcionada com você e eu nem vou dizer o que estou sentindo. Quero conversar com você então por favor, atenda as minhas ligações...não me faça ir até você...”

Li e reli várias vezes a mensagem.
Eles tinham todo o direito de estarem bravos e eu estava mais brava comigo mesma, porque nem um motivo sólido eu podia apresentar a eles em minha defesa.
Liga pra ele Liz... Você não precisa fazer isso... Aja como uma adulta!!!
Repreendi o meu lado sensato. Se eu ligasse tinha certeza que desmoronaria e em breve voltaria para casa. Por outro lado, se eu não respondesse, tinha certeza de que Ian viria atrás de mim. Pensei por longos minutos no que dizer até começar a digitar.

De: Liz
Para: Ian

Já havia tomado essa decisão há tempo e não tive coragem de contar a vocês. Vou morar com o Marcelo e desta vez, por tempo ilimitado. Cansei da mesmice, de sempre encontrar as mesmas pessoas, ir aos mesmo lugares e toda essa rotina chata. Quero novas experiências e sei que vou conseguir isso aqui. Não me despedi porque lamentos são desnecessários. Não me leve a mal, mas Daniele é um porre de amiga e você já teve seus dias melhores. Quando quiser, pode me ligar que atenderei ou mande cartas que prometo que respondo. Só não me venha com cobranças...não devo nada a vocês. Um bjo.

Quase chorei ao apertar o botão enviar. Aquela não era eu e por Deus, como eu queria que ele notasse a mentira em tudo o que havia escrito e viesse ao meu encontro.
Esperei que ele respondesse... E nada.
O cansaço continuava, mas a minha mente não permitia o descanso. Passei a noite em claro, esperando pela resposta dele.
E assim foram os dias. Ele me ligava as vezes e eu tentava passar uma animação absurda pelo telefone: ainda bem que ele não conseguia ver a minha expressão. Quanto a mim, cuidadosamente respondia as suas perguntas mas nunca tomava a iniciativa de ligar para ele. Minha mãe vivia chorosa no telefone, cobrando visitas e ligações que eu não fazia. Daniele nunca mais falou comigo e nos intervalos da faculdade, ficava imaginando como ela estaria, se havia passado em direito e relembrando nossas conversas animadas e sem noção as vezes.
Não havia um dia que eu não sentisse a falta deles, e doía saber que a vida seguia sem mim. Doía saber que não pude acompanhar o crescer deles e que se um dia eu retornasse as coisas nunca mais seriam as mesmas.
Marcelo e eu ficamos muito próximos durante os anos seguintes. Ele respeitava o meu espaço e eu o dele. Não havia cobranças, necessidades de conversar para quebrar o silencio ou manter formalidades. Ele tinha os afazeres dele e eu os meus, e desde que Caroline havia saído de casa depois de uma briga totalmente infantil com Marcelo, uma estranha paz caiu sobre a casa. Ele era legal até, tinha que admitir. Gostava de escutar a voz suave contando historias de sua infância, o olhar calmo quando eu contava sobre o meu diz, a risada quando os amigos dele vinham para assistir o futebol e principalmente, gostava das noites de verão, em que nós dois sentávamos na calçada e ele começava tocar musicas antigas em seu violão. Nosso relacionamento era constituído da minha vinda a cidade em diante. Infância e minha mãe eram assuntos evitados.
- Minha filha precisa de um namorado – Marcelo brincou certa noite, quando o filho de um dos seus amigos veio para assistir ao jogo.
Eu falava com minha mãe pelo Facebook quando levantei a cabeça e me deparei com o olhar risonho de Edgar... E nossa senhora do olhar, que olhos lindos. Corei violentamente e desviei a atenção, amaldiçoando Marcelo.
Balancei a cabeça e voltei a atenção a tela do laptop...e senti um mal estar me atingir rapidamente. Eu sabia que estava muito pálida.

Você não vai acreditar, Ian pediu Marina em casamento ontem à noite, na casa dos pais dela e já marcaram a data! Vai ser no dia do seu aniversário!!!

- Está tudo bem Elizabeth?































quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Capítulo 13


Sete anos depois



- Tem certeza que não estou parecendo um bolo de aniversário???
Marina olhava-se no espelho em todos os ângulos, a pequena mão acariciando inconscientemente a delicada barriga de 8 meses. Usava um vestidinho branco e solto, os cabelos ruivos desciam pelos ombros em delicadas ondas e os pés um pouco inchados estavam em chinelinhos dourados.
Eu já estava pronto há muito tempo, então me dediquei a tarefa de ficar sentado na cama observando a minha esposa se arrumar para irmos no jantar de Natal na casa da Vanessa.
Ri com a preocupação no rostinho branco e corado e não resistindo, a puxei para se sentar no meu colo. Ela também riu e apoiou a cabeça em meu peito. Beijei suavemente sua testa e espalmei a mão em sua barriga, mais uma vez uma onda de amor tão forte me atingindo ao saber que havia um pedacinho de nós dois crescendo ali.
- Você é o bolo mais lindo que eu já vi – brinquei, recebendo em seguida um tapinha na cabeça.
- Se essa criança nascer com cara de bolo a culpa é toda sua!!! – disse, beijando meus lábios. Retribui, no inicio com calma, leveza até que ela entreabriu os lábios eu então e aprofundei o beijo. Nunca enjoaria do beijo dela, não importava quanto tempo passasse. Senti ela se desvencilhando dos meus lábios e em seguida a vi em pé, ajeitando os cabelos com os dedos.
- Passei quase uma hora tentando domar esses cabelos, portanto não ouse se aproximar e estragar tudo – brincou, sorrindo.
Levantei-me e passei minha mão nos cabelos volumosos, desarrumando-os. A abracei e afundei meu rosto na curva do pescoço perfumado, ouvindo seus protestos.
- Prefiro eles rebeldes – murmurei, distribuindo beijo – isso me lembra que quando eles estão assim, geralmente estamos naquela cama e ...
- Tarado – interrompeu, rindo e se afastando – Acho melhor irmos de uma vez antes que eu decida querer o meu presente de Natal agora – falou maliciosa.
- Quando quiser – respondi me agachando e beijando a barriga dela.

Abri os olhos e encarei fixamente o teto.
Mais uma vez aquelas lembranças vinham me atormentar em sonhos.
Passei minhas mãos no rosto, secando os vestígios de lágrimas e suor. Minha mão caiu inerte do lado direito do colchão e apertaram convulsivamente os lençóis. Ela deveria estar ali, dormindo entre meus braços e sorrindo ao acordar, pensei. A dor da perda mais uma vez me sufocou e exasperado levantei da cama, constatando que eram ainda seis da manhã.
Passei pela cômoda, sabendo mesmo sem ver, que ali tinha uma foto de casamento, minha e de Marina. Ela estava radiante na foto, registrando um dos momentos mais importantes da minha vida.
Andei a passos largos em direção ao banheiro e tomei uma chuveirada fria. Quantas vezes nos últimos três anos eu havia feito a mesma coisa? Acordar assustado, tomar um banho frio e seguir em diante, ignorando a dor e vazio que queimavam meu peito?
Depois de longos minutos, sai e me vesti para mais um dia de trabalho no hospital. Meu sonho era ser o residente e devido aos acontecimentos, havia me entregado de corpo e alma ao trabalho, chegando ao topo em pouco tempo.
Marina havia partido há exatamente três anos em uma madrugada chuvosa.
A gravidez havia complicado nas suas ultimas semanas. Marina não conseguia comer, não levantava da cama e vivia a base de analgésicos. Quando ela entrou em trabalho de parto eu não estava em casa: havia saído para comprar flores a ela e uma roupinha pequena e bonita que havia visto na vitrine de uma boutique para a nossa filha. Quando cheguei em casa, Rose, a nossa empregada me esperava. Nunca conseguiria esquecer a expressão desolada no rosto idoso e abatido. No chão havia marcas de sangue e pelos olhos dela não precisei perguntar para saber o que havia acontecido. Dirigi como um louco até o hospital e ao chegar lá quase cai com um abraço forte de Daniele. Ela chorava e dizia coisas incompreensíveis.
Eu não entendia nada.
O corredor estava cheirando a álcool e o silencio era absoluto, tirando os soluços abafados de Daniele em meu pescoço. Soltei-a, sem me importar com o contato quebrado abruptamente. Andei com passos vagarosos ouvindo o sangue latejar em meus ouvidos. A sensação de que tudo estava em câmera lenta e isso me deixou tonto, ofegante. Não ouvi mais nada a não ser o som da minha respiração acelerada e o sangue rugindo. Quando cheguei ao final do corredor virei a esquerda e foi então que eu vi: Minha mãe chorava ruidosamente nos braços do meu pai, que ao me ver, fez menção de se levantar, porém como minha mãe o segurava, limitou-se a murmurar um “sinto muito”.
Olhei para a porta da sala de cirurgias e andei sem me importar com os protestos de um enfermeiro. Empurrei as portas com força, o vento delas chicoteando o meu rosto.
- Senhor, você não pode entrar ai!
A voz vinha ao longe quando parei, olhando fixamente para a mesa de cirurgia.
Uma enfermeira tinha um bebê nos braços e o embalava, limpando-o cuidadosamente.  Outra, tirou as luvas e a máscara com uma expressão de derrota. Ela passou por mim, sem me olhar. Havia três médicos ao redor da mesa e quando eles se afastaram de lá, já retirando aparelhos, agulhas e acessórios, meus joelhos foram ao chão. O foco cirúrgico incidia diretamente sobre um corpo pequeno, onde se podia ver que havia feito uma cesariana. O sangue estava sobre todo o local e então, a última coisa que vi antes de mergulhar na escuridão, foi uma aliança na mão que pendia fora do leito.
- Papai?
Uma vozinha sonolenta me chamou. Virei em direção a voz e sorri para a menina de cabelos ruivos, olhos verdes e segurando na mãozinha gordinha uma manta que tinha desde bebê. A manta que a mãe dela havia comprado ainda nas primeiras semanas de gravidez.
- Oi gatinha- falei, me agachando e recebendo o meu presente nos braços.



Música tema do capítulo

http://www.youtube.com/watch?v=ADvcipmJEi8



ps: como falei, tudo vai mudar radicalmente!
Ao contrario dos outros capítulos, esse tem uma pegada bem sombria...mas prometo que a historia não vai virar só d-pres HSAUHSUAHSAU
bjs
Até a próxima






segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Capítulo 12




- Morar com o seu pai??? – gritou a minha mãe com os cabelos em pé, os olhos arregalados acompanhando os meus movimentos. – De onde surgiu essa ideia Elizabeth?????
Ela me chamou de Elizabeth... vish.
- Mãe – comecei pela decima vez naquele dia - já faz um tempo que eu penso em morar com o Marcelo. Toda vez que conversamos, ele me convida pra passar um tempo com ele. Acho que agora é o momento perfeito para isso.
- E porque agora? – minha mãe choramingou, sentando na minha cama. Engraçado como éramos totalmente diferentes: ela parecia uma adolescente, era extravagante, divertida e muito bonita. Muitos acham que somos irmãs. – Já se passaram 17 anos Liz... 17 anos! E você ou ele nunca tiveram o interesse de passar mais de uma semana juntos.
Pensei rapidamente em uma resposta. A ideia matutava na minha cabeça há uma semana, logo depois que Diego havia me deixado em casa naquela noite do jantar.
Marcelo e minha mãe haviam se separado quando eu tinha 3 anos. Até hoje ela não superou, principalmente por ter me criado sozinha, sem a ajuda de ninguém. Passamos dificuldades e eu me sentia culpada pelo tempo que minha mãe poderia ter aproveitado de sua juventude. Eu não sabia o que sentia por Marcelo. Conversávamos as vezes por telefone, uma vez por ano eu tinha o habito de passar alguns dias na casa de campo dele e ele vinha para passar o Natal na cidade. Não tínhamos assunto, mas ficar na companhia dele, vendo-o tocar violão ou ficar em silêncios profundos era agradável. Acho que herdei os genes paternos mesmo.
Coloquei as calças jeans e algumas camisetas novas com cuidado dentro mala esfarrapada. Já havia tomado a minha decisão.
- A faculdade de artes plástica que eu tanto quero fica perto da casa dele e você sabe que o vestibular já está chegando. Quero passar um tempo, ou quem sabe, recuperar um pouco do tempo que ficamos separados, além de ser bom conhecer um lugar novo e pessoas novas – sorri, minha mandíbula doendo com a farsa – E você pode finalmente viajar sem se preocupar se estou bem ou sozinha. Quem sabe você não encontre um gato por ai? – brinquei e ela sorriu.
- As coisas não são tão simples assim Liz – falou, segurando o porta-retrato com a foto de Ian e eu juntos. – E a escola?
- Marcelo já conversou com os diretores do colégio em que vou estudar e eles me aceitaram. Faço a transferência e termino meus estudos lá. E também, o que são mais quatro meses de aula?
Minha mãe deu um sorriso triste e do nada me abraçou com tanta força que minhas costelas gritaram. A abracei também, já sentindo falta dessas aproximações, coisa que eu não teria com Marcelo. Havia mentido para ela, mas era por uma boa causa.
- Eu te amo mãe – murmurei, sentindo o cheirinho de lavanda e biscoitos tão característicos dela.
- Eu também te amo – declarou me apertando mais um pouco – Estamos falando sobre a sua partida há uma semana e você está mesmo decidida a ir. – ela se afastou, me segurando pelos ombros – Sei que querendo ou não, você sentiu falta de ter um pai e não pude fazer nada a respeito disso. Mesmo que eu não goste da ideia, passar um tempo com ele vai ser bom para os dois, sempre desejei que vocês fossem próximos um do outro. Isso não aconteceu durante a sua infância e nem inicio da adolescência... Mas antes tarde do que nunca – sorriu – Eu amo você Liz, só quero o seu bem. Se quiser ir, não vou impedi-la, mas aqui é a sua casa e sempre será.
- Eu sei – murmurei, sentindo uma dorzinha no peito.
- Quero que me ligue todos os dias, que passe uns dias aqui em casa e caso algo aconteça, volte.
- Pode deixar – sorri, segurando o choro.
- Agora deixa eu te ajudar a arrumar suas malas ou você vai acabar perdendo o voo.
Terminamos de guardar as roupas e calçados. Só faltavam algumas fotos, joias, e objetos que eu queria levar junto. Peguei a caixa de bijus, as poucas maquiagens que eu tinha um urso que ganhei quando era bebe e meu livro favorito “O Morro dos Ventos Uivantes”. O coloquei com cuidado dentro da mala. Ele pertencera a minha avó e foi o ultimo presente que ela me deu antes de falecer. As páginas estavam amareladas e frágeis, e continha muito mais do que apenas uma história.
- Vou colocar no porta-malas – minha mãe disse, erguendo uma caixa de papelão.
- Tudo bem, eu já desço.
Quando ela saiu e fechou a porta, sentei na minha cama, observando que o quarto, exceto as roupas que faltava estava como sempre, contudo, parecia que eu não pertencia mais a aquele lugar. Os desenhos de palitinhos e mãos impressas com tinta guache sobre o papel continuavam colados na parede desde os meus seis anos. A cama tinha os ursos fofos e totalmente infantis que ganhei durante a infância. O tapete continuava com a mancha de ketchup e a escrivaninha ainda estava forrada de papeis, embalagens de doces e canetinhas coloridas espalhadas.
As paredes eram cor rosa, um quarto digno da Barbie fora li que passei dias e dias brincando, conversando, contando segredos e chorando em silencio. Deitei na cama, sentindo a macies tão conhecida e observei as estrelinhas coladas no teto. As mesmas estrelas que há alguns dias atrás Ian tinha observado com um sorriso.
Olhei para o lado, onde ele estivera e toquei a colcha, buscando por marcas invisíveis. Não conversávamos pessoalmente desde aquela tarde em que ele apareceu com rosas e um ursinho para a Marina. Não que ele não tentasse. Mas eu tentei a todo custo evita-lo.
Foi a semana que mais me dediquei aos estudos.
Depois das aulas ele me ligava pedindo onde eu estava. Eu mentia dizendo que estava com Diego ou que minha mãe havia me buscado do colégio. Tudo mentira.
Depois daquela noite da ideia genial de ir morar com meu pai, Diego e eu brigamos. Para minha surpresa ele pediu desculpas e até disse que seria melhor mesmo nos afastarmos, uma vez que ele pretendia fazer um intercambio de um ano na Inglaterra.
Desde então, havia dedicado os meus últimos dias com transferência de colégio, conversas com a minha mãe e meu pai e finalmente organizar as minhas coisas para partir.
Eu sei, sei que estou agindo como uma menininha indefesa dos típicos livros ou filmes clichês: Estar apaixonada pelo melhor amigo, blé. Mas isso só foi uma alavanca para o que eu planejava há muito tempo: novas experiências, vida nova, pessoas novas e finalmente, a faculdade dos sonhos. Eu teria que ir para lá de qualquer forma, só que mais tarde.
“falar com você sempre me deixa mais leve, como se todas as respostas e soluções Mundo estivessem em você”.
Repreendi mais uma vez a voz dele na minha cabeça, e ao mesmo tempo, pedia para que ela continuasse, era a única coisa que eu teria dele quando partisse. Eu sabia que ele me odiaria. Iria partir sem me despedir de ninguém, eu odiava despedidas.
Mas claro, eu havia dito a minha mãe que havia me despedido de todos os meus amigos e colegas e até improvisei dizendo que eles fizeram uma festinha de despedida durante o intervalo. Respirei fundo e levantei da cama.
Um porta retrato dourado, em cima do criado mudo, tinha uma foto de Ian e eu abraçados e sorrindo para a câmera. Segurei o porta-retrato, abri-o e tirai a foto de lá, logo em seguida colocando dentro da minha bolsa. Aquela era a única de somente nós dois.
- Pronta?
Tomei um susto ao ver minha mãe dentro do quarto.
- Pronta
Fechei a porta do quarto ao sair, deixando uma parte de mim lá.
Desci as escadas sem pressa, prestando a atenção em pequenos detalhes e confiando a memória de que não seriam esquecidos. Eu sabia que não era um adeus. Ainda passaria muitos e muitos dias naquela casa, na companhia da minha mãe e quem sabe, se me perdoarem meus amigos.
Ao sair pela porta da frente, um vento gelado nos atingiu como um golpe. Corri para dentro do carro e fechei a porta. Minha mãe sentou no banco do motorista, sorriu para mim e deu a partida no carro.
Fiquei observando as casas passarem velozmente por nós e meu coração acelerou ao passar na frente da casa de Ian. Branca, de dois pisos com um jardim grande e bem cuidado e uma enorme arvore onde costumávamos passar o verão aproveitando a sua sombra enquanto o sorvete derretia em nossas mãos.
Respirei fundo e desviei o olhar.
Ele sempre seria meu melhor amigo e as melhores lembranças da minha vida o têm. Não quero estragar o namoro dele com declarações desesperadas. Se for para ficarmos separados que seja porque me afastei, fui embora sem dizer nada, porque não sou uma boa amiga... E não por estragar tudo com sentimentos que não são bem vindos.


Seis horas depois, cozinhando dentro das roupas de frio,  desembarquei na pequena cidade em que meu pai morava. Nos autofalantes do aeroporto, uma voz feminina e sensual informava que já eram oito da noite e a temperatura estava em torno dos 30°C.
Estava um tumulto, muita gente desembarcando, embarcando, a entrada estava lotada de pessoas aguardando e parecia que todo mundo teve a ideia de bater com a mala em mim.
Meus Deus, será que eu comprei a passagem errada e desembarquei no inferno?
- Elize!!!
Virei a tempo de ver Caroline correndo em minha direção e depois só senti meus ossos sendo triturados com o abraço.
- Oi Caroline- minha voz saiu abafada com o aperto sufocante.
Caroline me afastou e olhou dos pés a cabeça. Ter uma madrasta que parece a encarnação da boneca Barbie era desconcertante.
- Você está linda!!! E como cresceu, parece que foi ontem que você apareceu correndo e conversando com o seu amigo imaginário!
Corei com a lembrança e forcei um sorriso. Também a observei: cabelo loiros caindo em delicadas ondas até os ombros, um vestido Vintage, maquiagem leve e um corpinho com tudo no lugar. E o fato de ter apenas 8 anos a mais do que eu era ainda um choque.
Me senti o Shrek, literalmente.
- Também é bom ver você Caroline – retribui, me afastando.
- É Carol, você sabe – ela enlaçou Marcelo pela cintura, sorrindo como uma fada – Ela não está linda amor?
Marcelo me olhou, concordando com a cabeça. Encarar os olhos dele era o mesmo que olhar para o espelho. Mesmo com 40 anos, ele era lindo: alto, musculoso, sorriso branco e bonito, olhos grandes e expressivos, rosto anguloso e cabelos densos e negros. Era perfeitamente compreensível a paixão fulminante da minha mãe por ele.
- Está mesmo...já é um bela mulher.
Não nos abraçamos, apenas trocamos um sorriso cortes. Não suportava demonstrações forçadas de afeto. Ele também não.
- Então, vamos querida? –Carol disse, passando um braço amigável pelos meus ombros.
- Vamos – murmurei com um suspiro, entrando no Camaro preto e reluzente (um dos quatro carros do meu pai) e indo em direção a minha nova vida.













Que tal?
Com isso encerra-se um ciclo da vida de Liz e acreditem, vai mudar tudo radicalmente!
bjs